Existe um paradoxo curioso na adoção da inteligência artificial nas empresas. A tecnologia chega prometendo simplificar processos e agilizar decisões para tornar as rotinas menos operacionais. E, convenhamos, cumpre muito bem. Mas, ao mesmo tempo, deixa para trás uma complexidade que nenhum algoritmo resolve: o que fazer com as pessoas enquanto o trabalho muda por dentro, em ritmos diferentes e com impactos desiguais? É nessa fricção, entre a eficiência prometida e a insegurança vivida, que a gestão de mudança com IA se torna uma das frentes mais estratégicas do RH hoje em dia. E não porque a tecnologia seja uma ameaça a ser contida, mas porque transições malconduzidas corroem silenciosamente a confiança do colaborador na própria organização.
O problema é que boa parte das ferramentas usadas para conduzir mudanças foi pensada para outro tipo de transformação. Os modelos clássicos de gestão de mudança, com suas etapas bem definidas e planos de comunicação em cascata, funcionam melhor quando existe começo, meio e fim, como se houvesse um “jeito antigo” a ser abandonado e um novo a ser incorporado. Mas a IA não funciona assim. Ela não chega, simplesmente, como um sistema que entra no ar numa segunda-feira e, depois do treinamento, vira rotina.
A inteligência artificial provoca uma transformação menos linear e mais espalhada, com velocidades e impactos diferentes dentro da mesma empresa. Enquanto uma área já opera toda automatizada, outra ainda tenta entender o que muda na atividade mais básica do dia a dia. Um time ganha velocidade, outro perde referência. E é aí que a pergunta fica mais difícil: como conduzir uma mudança que não tem roteiro nem data para acabar e, ainda por cima, não afeta todo mundo do mesmo jeito?
Escala também muda o desafio
É esse ponto de atenção que orienta o Assaí Atacadista. Em uma rede com mais de 90 mil colaboradores, distribuídos em centenas de lojas e centros de distribuição pelo Brasil, a transformação digital não pode depender apenas de treinamentos pontuais ou comunicados bem-intencionados. Sandra Vicari, VP de Gestão de Gente e Sustentabilidade da companhia, resume o desafio ao apontar que “gestão de mudança, hoje, significa conduzir uma transformação contínua, que envolve tecnologia, processos, competências e cultura organizacional de forma integrada”.
Por lá, o que chama atenção é que tecnologia e pessoas não aparecem como agendas separadas, mas como partes de um mesmo movimento. Essa combinação se traduz em iniciativas que conectam automação e desenvolvimento humano. De um lado, a Maia, assistente virtual com IA, que atende colaboradores em temas como benefícios, férias e folha de pagamento, liberando as equipes de RH para uma atuação mais estratégica. Do outro, um programa de transformação digital que vai do letramento básico a conteúdos avançados em dados e inovação, trabalhado de forma transversal em toda a Universidade Assaí. “Mais do que implementar novas ferramentas, trata-se de preparar as pessoas para um contexto de evolução constante”, destaca Sandra.
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